Passeio noturno

5 08 2008

(pintura: Noite estrelada de Van Gogh)

“É gripe. Amanhã de manhã já estará novinha em folha, se precisar de qualquer coisa, é só me chamar, está bem?” Disse sua mãe após encostar a testa na sua. Ela parecia preocupada, mas procurava sorrir. A escuridão invadiu o quarto quando ela se afastou com o lampião e escondeu as paredes de pau-a-pique, o piso de terra batida.

A menina ouvia seus irmãos mexerem-se ao seu redor sobre os colchões finos. Aos poucos, as respirações isoladas uniram-se em um único som regular e cadenciado.

Ela procurava dormir, mas não conseguia, sentia todo o seu corpo pesado, era como se houvesse uma pedra sobre o seu peito. Olhava para a escuridão, via a luz do luar entrar por algumas frestas entre a parede e o telhado, deveria estar mais claro do lado de fora, pensou em como seria bom sair para caminhar pelo quintal e brincar com seus cães. Passou um bom tempo procurando imaginar como seria aquele mundo escuro do lado de fora. Estava quase adormecida quando sentiu sua cama dar um baque, como se ele tivesse sido levantada do chão.

“Você não quer dar um passeio, menina?” Ouviu uma voz masculina vinda do pé da cama, mas não via ninguém. Ela saiu debaixo das cobertas e sentou-se sobre o travesseiro. Não sentia medo, parecia a coisa mais prosaica do mundo. Ela balançou a cabeça em resposta, sim, queria passear. A voz pareceu ter entendido, pois logo sentiu a cama flutuar em direção da porta aberta, ela pairava no ar em silêncio evitando os móveis e as paredes com movimentos ágeis. A porta da cozinha estava aberta e foi por ela que saiu. Apesar da fraca claridade da lua iluminar um pouco o quintal, as árvores e os pastos, a menina não conseguia distinguir seu companheiro invisível, no entanto, aquilo não lhe parecia importante. Sentia-se bem, talvez fosse o efeito do ar fresco, esquecera o mal-estar.

“Aonde quer ir?” Ouvia a voz perguntar. Ela não sabia. Seu companheiro invisível hesitou um pouco, mas logo a cama virou-se e tomou o rumo da estrada de terra que passava pela frente da propriedade. Os cães dormiam perto dos galinheiros, levantaram as cabeças quando a viram passar, mas logo voltaram a abaixá-las. Uma cama flutuante não merecia latidos. Aquilo era como passear sobre uma carroça, como costumava fazer com seu avô, com a vantagem de não haver solavancos. A menina contemplava a paisagem e ouvia a voz que conversava com ela sempre ao pé da cama à sua frente. Ela ria de tempos em tempos, era uma voz engraçada que lhe contava histórias absurdas. Ficaram quase toda a noite passeando pelas estradas da região, atravessando pastagens silenciosas.

“Está na hora de voltar,” disse a voz e a menina concordou a contragosto. A cama deu meia-volta e refizeram o trajeto até a casa. Entraram pela mesma porta da cozinha e a cama foi depositada em sua posição original. Os irmãos da menina dormiam.

“Um dia faremos um passeio ainda mais longo, espere só!” Disse a voz ao se despedir. A menina ainda ficou desperta por alguns minutos, mas sentiu os olhos pesados e acabou adormecendo sobre as cobertas.

Ela permaneceu adoentada por vários dias. Sua mãe procurava alguém que a levasse ao hospital da cidade, mas, felizmente, não foi preciso chegar a tanto. Uma manhã, a menina acordou sentindo-se melhor, bebeu seu café com leite e voltou a brincar com seus irmãos menores enquanto sua mãe trabalhava na roça.

Ao dormir, todas as noites esperava passear pelos campos sentada sobre a sua cama mais uma vez, mas aquilo não se repetiu naquele mês, nem naquele ano, nem nos seguintes. O tempo passou e já estava velha, muito velha, quando ouviu aquela voz quase esquecida novamente. Ela vinha cumprir sua promessa.