Cidade X

8 01 2009

relativity(Obra: Relatividade de Maurits Escher)

Era sempre uma experiência estranha ir para a cidade X com meu pai. Não me lembro se ele pedia que eu o acompanhasse ou se eu me oferecia para ir junto no dia anterior à partida. Sei que de repente me via dentro de um ônibus e logo estava no meio de uma grande cidade. Várias pernas indo de um lado para o outro passavam na altura de meus olhos. E tudo era cinza e o ar tinha um cheiro estranho, um misto de urina e mofo. Caminhávamos pelas ruas da cidade durante o que me pareciam longas horas, meu pai segurava uma de minhas mãos e eu corria para acompanhar seus passos, corria ainda mais para atravessar as ruas antes que os semáforos mudassem de cor. Depois subíamos e descíamos várias escadarias de prédios antigos. Elas eram escuras, os degraus sujos e meio gastos pelo tempo. Entrávamos e saíamos de salas onde meu pai conversava com alguém atrás de uma escrivaninha coberta de papéis, as janelas fechadas deixavam o ambiente abafado, sem ter o que fazer, eu olhava para o céu e observava as nuvens escuras movendo-se lentamente atrás dos vidros.

Nunca soube o que meu pai ia fazer ali, tinha apenas a impressão vaga de que era algo relacionado com as suas longas ausências a trabalho. Não gostava da cidade X, entretanto, não consigo esquecê-la, ela ficou enraizada em algum lugar de minha memória e, sem que me dê conta, de repente me vejo outra vez em uma de suas ruas, em uma de suas escadarias.





A pintora e o escritor

31 08 2008

Conheceu a pintora no colegial. Ela era morena, linda e triste. Aquele tipo de garota que não sabe o quanto é bonita e anda pelos cantos, procurando esconder-se, e acaba sendo deixada de lado pelas panelinhas de adolescentes.

O escritor também era como ela e, talvez por isso, foram atraídos um pelo outro como imãs. Ele era loucamente apaixonado por ela, talvez fosse recíproco, mas nunca foram além da amizade. Durante as férias, trocavam cartas quando viajavam. O escritor esperava pelas cartas da pintora com ansiedade e fechava-se no quarto para lê-las longe dos olhos da família. Ele as respondia imediatamente. Eram sempre cartas tristes, quase depressivas, com alguns toques irônicos de ambas as partes.

Tudo acabou quando entraram na faculdade, a pintora foi para outro estado prosseguir os estudos e tornar-se uma pintora de verdade. O escritor, que nunca soube direito o que fazer da vida, foi estudar letras. No primeiro ano, a pintora e o escritor ainda trocavam cartas, mas, aos poucos, elas começaram a minguar e,  no fim, deixaram de ir e vir. O escritor se formou, arranjou um emprego freelancer, conheceu uma garota e se casou. O primeiro filho do casal acabara de nascer quando ele recebeu um e-mail da pintora, ela encontrara seu endereço na internet e perguntava como iam as coisas.

O escritor ficou contente e surpreso ao receber notícias da pintora após todos aqueles anos. Ainda se lembrava dela com carinho e escreveu sobre o trabalho e o casamento. Ela respondeu. Estava deprimida e confusa. Depois de ler aquelas linhas, o escritor imaginou-a morena, linda e triste.

Era a sua vez de responder, mas não sabia como começar. Muitas águas rolaram no riacho de sua vida, ele não era mais um punk cabeludo, entretanto, a pintora parecia não ter mudado naquele ínterim e escrevia como se ele ainda fosse o mesmo. Apesar de não ser famoso e rico, estava satisfeito com sua situação, poderia dizer que era quase feliz. Ele se deu conta de que não sabia mais escrever cartas tristes e irônicas. Acabou escrevendo generalidades. Sabia que a pintora perceberia a falta de autenticidade de suas palavras e ficaria desapontada, mas não havia o que fazer.

Colocava o ponto final definitivo naquela troca de missivas.





Passeio noturno

5 08 2008

(pintura: Noite estrelada de Van Gogh)

“É gripe. Amanhã de manhã já estará novinha em folha, se precisar de qualquer coisa, é só me chamar, está bem?” Disse sua mãe após encostar a testa na sua. Ela parecia preocupada, mas procurava sorrir. A escuridão invadiu o quarto quando ela se afastou com o lampião e escondeu as paredes de pau-a-pique, o piso de terra batida.

A menina ouvia seus irmãos mexerem-se ao seu redor sobre os colchões finos. Aos poucos, as respirações isoladas uniram-se em um único som regular e cadenciado.

Ela procurava dormir, mas não conseguia, sentia todo o seu corpo pesado, era como se houvesse uma pedra sobre o seu peito. Olhava para a escuridão, via a luz do luar entrar por algumas frestas entre a parede e o telhado, deveria estar mais claro do lado de fora, pensou em como seria bom sair para caminhar pelo quintal e brincar com seus cães. Passou um bom tempo procurando imaginar como seria aquele mundo escuro do lado de fora. Estava quase adormecida quando sentiu sua cama dar um baque, como se ele tivesse sido levantada do chão.

“Você não quer dar um passeio, menina?” Ouviu uma voz masculina vinda do pé da cama, mas não via ninguém. Ela saiu debaixo das cobertas e sentou-se sobre o travesseiro. Não sentia medo, parecia a coisa mais prosaica do mundo. Ela balançou a cabeça em resposta, sim, queria passear. A voz pareceu ter entendido, pois logo sentiu a cama flutuar em direção da porta aberta, ela pairava no ar em silêncio evitando os móveis e as paredes com movimentos ágeis. A porta da cozinha estava aberta e foi por ela que saiu. Apesar da fraca claridade da lua iluminar um pouco o quintal, as árvores e os pastos, a menina não conseguia distinguir seu companheiro invisível, no entanto, aquilo não lhe parecia importante. Sentia-se bem, talvez fosse o efeito do ar fresco, esquecera o mal-estar.

“Aonde quer ir?” Ouvia a voz perguntar. Ela não sabia. Seu companheiro invisível hesitou um pouco, mas logo a cama virou-se e tomou o rumo da estrada de terra que passava pela frente da propriedade. Os cães dormiam perto dos galinheiros, levantaram as cabeças quando a viram passar, mas logo voltaram a abaixá-las. Uma cama flutuante não merecia latidos. Aquilo era como passear sobre uma carroça, como costumava fazer com seu avô, com a vantagem de não haver solavancos. A menina contemplava a paisagem e ouvia a voz que conversava com ela sempre ao pé da cama à sua frente. Ela ria de tempos em tempos, era uma voz engraçada que lhe contava histórias absurdas. Ficaram quase toda a noite passeando pelas estradas da região, atravessando pastagens silenciosas.

“Está na hora de voltar,” disse a voz e a menina concordou a contragosto. A cama deu meia-volta e refizeram o trajeto até a casa. Entraram pela mesma porta da cozinha e a cama foi depositada em sua posição original. Os irmãos da menina dormiam.

“Um dia faremos um passeio ainda mais longo, espere só!” Disse a voz ao se despedir. A menina ainda ficou desperta por alguns minutos, mas sentiu os olhos pesados e acabou adormecendo sobre as cobertas.

Ela permaneceu adoentada por vários dias. Sua mãe procurava alguém que a levasse ao hospital da cidade, mas, felizmente, não foi preciso chegar a tanto. Uma manhã, a menina acordou sentindo-se melhor, bebeu seu café com leite e voltou a brincar com seus irmãos menores enquanto sua mãe trabalhava na roça.

Ao dormir, todas as noites esperava passear pelos campos sentada sobre a sua cama mais uma vez, mas aquilo não se repetiu naquele mês, nem naquele ano, nem nos seguintes. O tempo passou e já estava velha, muito velha, quando ouviu aquela voz quase esquecida novamente. Ela vinha cumprir sua promessa.