tarde cítrica

24 11 2008

dedicatória: para d.
para ler ouvindo: saudosismo de caetano veloso

De repente, parecia que a tarde ensolorada e quente tinha parado, congelado no tempo. Trazendo lembranças esquecidas, velhos guardados, talvez e até tudo o que tinha sido encerrado no passado. Ou quase.

Vê-lo, pôr os olhos em ti foi uma experiência estranha, desconcertante. E a tarde se arrastou, mas não foi um arrastado modorrento, pesado, mofento. Foi cítrico, quase alegre, abraçado numa nostalgia que não sabe parar.

Esses dias quentes de veranico que não se decidiam entre voltar ao inverno ou avançar no verão me deixavam atordoada e saudosista. Saudosita de cenas vividas no passado, emoções à flor da pele, alegrias irrestritas, responsabilidades adiadas… vento sol sorriso sorvete areia da praia banco da praça olhares de esguelha escondendo a felicidade…

E sonhos. Num tempo onde tudo poderia ser. Nada era impossível. Não havia amargura ou, se havia, era pouca, praticamente uma besteira, nada que angustiasse a alma profundamente. Nada que trouxesse dúvidas existenciais ou vontade de morrer. A vida era leve e, apesar de não ser rica, era cheia de pequenas felicidades.

Naquele momento congelado, pouco importava que, agora, tudo fosse tão diametralmente diferente. A vida era assim e nunca seríamos os mesmos para sempre. Então, pela brevidade de algumas horas, eu me deixei envolver naquela névoa de vapor fictício como se todos os medos e remorsos e dores pudessem ser superados para sempre e eu pudesse ser, novamente – ainda que talvez pela última vez – alguém com a alma e o coração leves.

A tarde se demorou a passar, mas era um pouco como o gosto de uma liquirizia que vem amargo e por fim fica adocicado na boca. Assim era aquela tarde. Límpida, febril e repleta de ternura.

tarde citrica

miki w. | 25.out.2008

ilustração da autora
tarde cítrica
23.nov.2008
lápis, tinta de caneta tinteiro, lápis de cor aquarelável, pastel à óleo, pó de arroz e sombra s/ papel
32,5 x 47,5 cm

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