o pavão e a caixa

10 10 2008

para ler ouvindo: for today, i’m a boy por antony and the johnsons

O pavão povoava seus sonhos.

Mas, ela, assustada demais para deixar que ele vivesse, tratou de trancá-lo bem trancadinho numa caixa.

A caixa era linda: toda entalhada em madrepérola e adornada com delicados fios de prata. Um ou outro brilhinho de cristais aqui e ali. E a chave: uma minúscula e delicada chave com a qual ela fez “clic” girando lentamente duas vezes. Pronto, estava feito. Ela não deu chance para o arrependimento sequer pensar em aparecer. Escondeu a chave e foi viver a sua vida, certa de que estava fazendo a coisa certa.

A vida escorria caudalosa e veloz, como um rio enraivecido que tem pressa em chegar. Aonde, ela não sabe. Mas isso não faz com que a pressa diminua. Ou antes: sequer há tempo para questionamentos.

E assim passaram-se amores, amigos, o pai que sempre lhe fora tão querido, a sobrinha-afilhada que virou mocinha antes que ela pudesse lhe dedicar todo o amor que gostaria, oportunidades de mudar o rumo da sua vida… tudo isso passou sem que ela desse atenção.

Dizia a si mesma: “é que eu não tenho tempo. Não é que eu não queira me dedicar, mas sou bem-sucedida, não sou? Tenho um emprego de sonhos, ganho muito dinheiro, viajo pelo mundo todo. Tenho uma casa maravilhosa, um personal trainner que não deixa que meu corpo se acomode na preguiça, como só o que faz bem, conheço tudo sobre vinhos, sou bem-relacionada, todo mundo inveja a minha posição e tudo o que eu alcancei com o meu esforço. Sou bem-sucedida, não sou?”

Mas, vez ou outra, quando uma certa tristeza – que ela não sabia de onde vinha – aparecia, ela se lembrava da caixa. E, mais raramente ainda, arriscava-se a dar uma espiadela disfarçada para ela…

E mesmo trancafiado na caixa apertada e escura, o pavão faiscava levemente, tão lindo e suave que algumas fagulhas escapavam pelas frestras.

“Sou bem-sucedida, não sou?”

“Você acredita nisso de verdade?” – um dia, o amor da sua vida, aquele que ela deixou para trás junto com tudo o mais devolveu sua pergunta.

“Vá embora.” – ela disse.

Mas seu perfume de magnólia continuou atormentando seus sentidos. Sem poder suportar, ela correu até seu magnífico closet e, abraçou-se a um vestido de renda delicadíssimo – que não tinha nada a ver com o seu estilo de mulher-bem-sucedida-de-hoje – e chorou. Seus soluços cortaram a noite e eram tristes e sentidos como ela nunca ousou deixar.

“Sim, Frida, você tem razão. Eu não sou bem-sucedida. Sou uma mulher triste e amargurada que se engana todos os dias.”

Abrindo a frente de seu corset de seda, ela puxou a finíssima e longa corrente de ouro que pendia de seu pescoço com uma firmeza e decisão que ela nunca imaginou existirem dentro de si. O frágil e débil fio metálico arrebentou deixando cair uma minúscula chave.

Ela caminhou, uma vez mais, até seu closet e, girando uma parede falsa, retirou dali uma caixa toda entalhada em madrepérola e adornada com delicados fios de prata…

Vestiu o vestido de renda, calçou sandálias simples, sem salto nem glamour parecidas com as de um pescador, abraçou a caixa e, trancando a porta da frente, partiu para nunca mais voltar.

miki w. | 2.out.2008 [ilustração da autora]

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6 responses

15 10 2008
karen

Gostei e a ilustruação ficou muito bonita!

Nossas histórias são meio tristonhas, não é verdade?

15 10 2008
miki

oi, karen!

sou suspeita… quando era mais nova, tudo o que eu escrevia era assim triste. mas até que esse eu não acho tão triste assim 6.6!

que coisa, pensei tanto em você, que você apareceu! estava preocupada, pois não te vi “por aí” e achei seu último post do kafka um pouco triste. tudo bem com vc?

bjs!

17 10 2008
karen

Tudo bem sim, Miki! Não se preocupe. Estou só sem muita vontade de “circular” por aí, blogar, mas é uma fase!

Não é que o conto seja triste, eu o achei meio “melancólico”… 🙂

Beijos!

24 10 2008
miki

^.^ ele é melancólico sim, karen! vc tem razão!
beijinhos e espero q essa fase passe logo 😉

24 11 2008
Ana Carmen

Eu achei esse texto belíssimo…

25 11 2008
miki

oi, ana!!! surpresa boa ver encontrar você aqui.
adorei escrever esse texto.
ele nasceu de repente dentro de mim.
escrevi numa sentada e não mudei quase nada para publicá-lo.
acho que ele já vivia há tempos dentro de mim!
bjs, querida,
miki

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