A pintora e o escritor

31 08 2008

Conheceu a pintora no colegial. Ela era morena, linda e triste. Aquele tipo de garota que não sabe o quanto é bonita e anda pelos cantos, procurando esconder-se, e acaba sendo deixada de lado pelas panelinhas de adolescentes.

O escritor também era como ela e, talvez por isso, foram atraídos um pelo outro como imãs. Ele era loucamente apaixonado por ela, talvez fosse recíproco, mas nunca foram além da amizade. Durante as férias, trocavam cartas quando viajavam. O escritor esperava pelas cartas da pintora com ansiedade e fechava-se no quarto para lê-las longe dos olhos da família. Ele as respondia imediatamente. Eram sempre cartas tristes, quase depressivas, com alguns toques irônicos de ambas as partes.

Tudo acabou quando entraram na faculdade, a pintora foi para outro estado prosseguir os estudos e tornar-se uma pintora de verdade. O escritor, que nunca soube direito o que fazer da vida, foi estudar letras. No primeiro ano, a pintora e o escritor ainda trocavam cartas, mas, aos poucos, elas começaram a minguar e,  no fim, deixaram de ir e vir. O escritor se formou, arranjou um emprego freelancer, conheceu uma garota e se casou. O primeiro filho do casal acabara de nascer quando ele recebeu um e-mail da pintora, ela encontrara seu endereço na internet e perguntava como iam as coisas.

O escritor ficou contente e surpreso ao receber notícias da pintora após todos aqueles anos. Ainda se lembrava dela com carinho e escreveu sobre o trabalho e o casamento. Ela respondeu. Estava deprimida e confusa. Depois de ler aquelas linhas, o escritor imaginou-a morena, linda e triste.

Era a sua vez de responder, mas não sabia como começar. Muitas águas rolaram no riacho de sua vida, ele não era mais um punk cabeludo, entretanto, a pintora parecia não ter mudado naquele ínterim e escrevia como se ele ainda fosse o mesmo. Apesar de não ser famoso e rico, estava satisfeito com sua situação, poderia dizer que era quase feliz. Ele se deu conta de que não sabia mais escrever cartas tristes e irônicas. Acabou escrevendo generalidades. Sabia que a pintora perceberia a falta de autenticidade de suas palavras e ficaria desapontada, mas não havia o que fazer.

Colocava o ponto final definitivo naquela troca de missivas.

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2 responses

3 09 2008
miki

karen, que conto triste!
mas talvez seja bem “a vida como ela é”, não é mesmo?
bjs, miki

4 09 2008
karen

É acho que é isso mesmo, Miki! 🙂

Beijos!

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